“As palavras… Nada nos engana tanto; nada mais misterioso do que sua ação e o seu poder. Existe um mistério da palavra. (…) O mistério de uma palavra, que é atributo verdadeiro do homem, do ser que fala, e fala sempre, e do qual o próprio silêncio é cheio de palavras; do ser que ignora, aliás, o rumo que tomarão essas palavras, uma vez saídas de sua boca, palavras que durante séculos passarão de boca a ouvido tais e quais, ou mais ou menos tais e quais. É verdade, a respeito da linguagem falada, que, assim que ultrapassa a barreira dos dentes de um ser humano, escapa dele; não pode mais ser retomada; assume um valor independente daquele do sujeito falante. (…) E quanto à palavra escrita… pensemos no espanto que nos toma, às vezes, quando, depois de dez anos, caímos sobre uma página escrita por nós mesmos, que inicialmente não reconhecemos e que julgamos, essa palavra que se tornou estranha para nós, como uma palavra anônima de fato; essa palavra que nos agrada ou nos desagrada, que nos emociona ou que soa falsa a nossos ouvidos e que, no entanto, foi nossa palavra; nossa palavra autêntica, quando a pusemos no papel. Quantas coisas a dizer nesse campo! (…) é tão forte que é preciso desconfiar sempre quando começamos a escrever, pois não sabemos até onde a escritura poderá nos levar.”
FEBVRE, L. “'Honra ou Pátria?' [anotações de aula]” In: Honra e Pátria. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998, p. 46-47.
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