sábado, 19 de maio de 2012

de [uma?] pedra - pretexto

No meio do caminho – não exatamente na metade; talvez mais mais 
      para o início que para o fim
–, inventei-me uma pedra.
Fiz que vi a tal dita; um como quase-pedregulho – há que se justificar a 
      quem, de um nada, o tudo importa 
– e parei.

Repeti: indutivo, insistente – como o mole à cabeça, dura.
O enunciado, pétreo, fez-se um pois acontecimento
[é que minhas retinas, fatigadas, jamais esquecerão o que sequer esteve 

      – no meio]. 

Em meu caminho, eu dizia, uma pedra: convenci-me.
E em meu todo-pretexto afiançado,

interrompi-me  faceiro; farsante.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

fado da vida bela

[Pedro Luís & Ricardo Cruz]

És musa de beleza sem limites
Permites que o poeta em mim não cesse
Consentes ao oculto aparecer
No muito que ofereces quando existes

Beleza assim de musa tal qual trazes
Arrebata o tonto olhar de quem avista
E arrisca ter a vida por um fio
Mas perco-me num assobio
Porque a vida é bela

És musa de beleza sem limites
Permites que o poeta em mim não cesse
Consentes ao oculto aparecer
No tudo que ofereces quando insistes em me inspirar

Aquilo que o teu silêncio explica
O destino traz para mim em labaredas
Veredas onde somes da visão
Descompassam o coração
Mas a vida é bela.



Para ouvir outra [particularmente interessante] do Zambujo, clique aqui. 

domingo, 6 de maio de 2012

de palavras

“As palavras… Nada nos engana tanto; nada mais misterioso do que sua ação e o seu poder. Existe um mistério da palavra. (…) O mistério de uma palavra, que é atributo verdadeiro do homem, do ser que fala, e fala sempre, e do qual o próprio silêncio é cheio de palavras; do ser que ignora, aliás, o rumo que tomarão essas palavras, uma vez saídas de sua boca, palavras que durante séculos passarão de boca a ouvido tais e quais, ou mais ou menos tais e quais. É verdade, a respeito da linguagem falada, que, assim que ultrapassa a barreira dos dentes de um ser humano, escapa dele; não pode mais ser retomada; assume um valor independente daquele do sujeito falante. (…) E quanto à palavra escrita… pensemos no espanto que nos toma, às vezes, quando, depois de dez anos, caímos sobre uma página escrita por nós mesmos, que inicialmente não reconhecemos e que julgamos, essa palavra que se tornou estranha para nós, como uma palavra anônima de fato; essa palavra que nos agrada ou nos desagrada, que nos emociona ou que soa falsa a nossos ouvidos e que, no entanto, foi nossa palavra; nossa palavra autêntica, quando a pusemos no papel. Quantas coisas a dizer nesse campo! (…) é tão forte que é preciso desconfiar sempre quando começamos a escrever, pois não sabemos até onde a escritura poderá nos levar.” 

FEBVRE, L. “'Honra ou Pátria?' [anotações de aula]” In: Honra e Pátria. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998, p. 46-47.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

o antes da resposta

Escrever. E aguardar: na pausa, o todo ansiedade; receio. Contam-se caracteres; suspiram-se, singularmente, vírgulas – no afã de, em suposto perfeccionismo, arredondar parágrafos. Bem como se da forma última o tudo, de repente, dependesse. Insistir no reflexivo, a releituras, e, no findarem-se prazos, render-se ao derradeiro pontuar – um absoluto, e pouco resoluto, finalmente-ponto; mascarar do persistirem reticências. Simplesmente – por imposto afastar-se – interromper: um deterem-se as mãos. E ficar […]. Em suspenso. Resignar-se ao, como eterno, ansiar pelo comentário ultimado: do oculto, do ausente [do, em pretensão, estéril] avaliador de escreveres anônimos. Saber-se em tudo dependente de um resolutivo-resposta – palavra última; incontornável consequente. Contando, aos suspiros, o adiar-se, esperar. E esperar. E esperar […]. 

Escrever. E aguardar: [tentar] o publicar de um artigo é mesmo – concedo-me, para o [justificável, claro está] hiperbólico, especial licença – um penitenciar. Sentença de meu sempre em nada encoberto dramatizar. Prerrogativa do espaço que me foi – por mim mesmo – concedido. Indubitavelmente um apenas – antes da aguardada resposta – resmungar.

terça-feira, 1 de maio de 2012

de maio o primeiro: feriado

Procrastinar. Deixar, em suspenso, de um tudo – e não pouco. Inventar, aos infindáveis, nada sutis empreitadas. Num em bem pouco dissimulado ocupar-me, andar às voltas – e de volta – sem [sequer literalmente; nem mesmo por um instante] sair do lugar. Sentir, caído o dia, da suposta responsabilidade o peso, e o dissabor, e a culpa – bem mesmo assim; nesse todo amargurado exagero. Ainda num como arrependido, ouvir, no acaso do rádio – melodioso sotaque, em sintonia –, de um inspirado Lenine o oportuno, a aconselhar: “o certo é que eu não sei o que virá, só posso te pedir que nu-unca se leve tão a sério, nu-unca se deixe levar”. Cantar junto – cabeça balançando, pouco custa o confessar. E me permitir  como que aliviado –, em um só suspiro, de meu todo-já-descanso descansar: feriado.